sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Vamos falar de relacionamentos modernos

"Era uma vez um casal de amigos que decidiu assistir à série How To Get Away With Murder juntos...

Ela - Eu sei que você não é muito de séries, mas eu queria muito começar a ver essa. E eu também sempre quis ver uma série com alguém. Quer ver comigo?
Ele - Quero!

E foi uma primeira temporada incrível para o jovem casal. Eles se divertiram muito e sempre brincavam sobre não poder assistir sem o outro, e muito menos com outra pessoa.

Um belo dia, Ele quis firmar o relacionamento:

Ele - Eu queria te falar uma coisa...
Ela - Pode falar
Ele - As coisas estão indo tão bem com a gente, que eu queria dar mais um passo...
(O coração dela bateu forte)
Ele - Quer ver a segunda temporada comigo?
Ela - Sim! Claro que sim!

Começaram a segunda temporada, o ritmo estava meio devagar, já não era mais aquele fogo. Estavam havia muito tempo sem assistir, até que...

Ela - Precisamos conversar.
Ele - O que foi?
Ela - Eu não sei bem como falar... eu te traí.
Ele - O que?!
Ela - Vi HTGAWM sem você.
Ele - Não tô acreditando nisso...
Ela - Fazia tanto tempo que a gente não via, e eu tava muito a fim de ver...
Ele - Com quem foi?
Ela - Você não conhece...
Ele - Quantos episódios?
Ela - Foi só um, eu juro... não significou nada...
Ele - Não acredito que você fez isso comigo.

E foi o fim."

Por Beatriz Belintani
(eu, no caso)
Agradecimento ao João Daniel
(que vê htgawm comigo)

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(não tivemos traições so far)



Fonte: https://commons.wikimedia.or
/wiki/File:Couple_looking_at_tv_screen_
@_Museu_da_imagem._Braga,_2011.jpg

Acho que fala por si só, né?

sábado, 16 de janeiro de 2016

Vamos falar de #OscarsSoWhite

Precisamos falar sobre essa polêmica.

Foram anunciados nesta última quinta-feira (14) os nomeados ao prêmio Oscar desde ano. E no mesmo dia surgiu essa tag  #OscarsSoWhite no Twitter. Li muitos deles. As pessoas estavam bem irritadas e muito indignadas com as nomeações, porque entre os 20 atores nomeados (melhor ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante) não há nenhum negro. Depois comecei a ler alguns portais e blogs pra entender de fato o que essas pessoas estavam criticando. Estavam criticando, nitidamente, a Academia. 

Eu não vou botar minha mão no fogo e dizer que a Academia não é preconceituosa, ou defender incondicionalmente as nomeações. Entretanto, acredito que essas pessoas estão colocando a culpa no lugar errado. É a indústria cinematográfica que dá mais oportunidade para brancos do que para negros, é Hollywood, é o dia a dia do ofício; não é o grupo de pessoas que assiste tudo que foi feito e escolhe quem eles consideram melhores. Negros no cinema é uma questão de oportunidade! É aí que deve estar a crítica de todos.

Precisamos ter mais negros do cinema. Isso é nítido! Só poderemos ter grandes atores sendo reconhecidos e nomeados quando eles estiveram lá, no meio! O grande problema está nessa indústria. São os produtores, os diretores, os roteiristas. 
Então sim, #OscarsSoWhite, mas porque #CinemasSoWhite. Vamos jogar nossa crítica no colo de quem merece.

Para ilustrar, o discurso MARAVILHOSO de agradecimento de Viola Davis quando ganhou o Emmy por "How To Get Away With Murder". Porque, em suas palavras "você não pode ganhar um Emmy por papéis que não existem."




Viola Davis e Shonda Rhimes atualmente são as mulheres que mais admiro, junto com Kerry Washington. São mulheres como elas que vão mudar o mundo.
Por mais oportunidades para negros no Cinema! 



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Vamos falar de Spotlight

spot·light
ˈspätˌlīt/
A strong beam of light that illuminates only a small area, used especially to center attention on a stage performer.
(Um forte raio de luz que ilumina apenas uma pequena área, usado especialmente para centrar a atenção em um artista de palco.)

Ou, simplesmente, holofote.

O filme "Spotlight" atualmente nos cinemas combina um ritmo de tensão investigativa com uma temática bastante séria: o abuso sexual de inúmeras crianças por padres da igreja católica. Baseado em uma história real sobre um grupo de jornalistas que decide fazer essa investigação. 
Entretanto, o que pega mesmo, o que te deixa mais ligado na história são as questões colocadas em relação à prática do jornalismo. A "Spotlight" quer derrubar um sistema horrível que tem tudo para, na verdade, consumir o jornalismo e torná-lo parte dele. Não é uma tarefa fácil, e a todo momento a moral e a ética desse grupo é contestada e colocada à prova.
Se eles vão conseguir? Você vai ter que assistir pra descobrir...

A grande questão é de fato colocar o que importa no "holofote". O objetivo da Spotlight era colocar essa discussão dos abusos no foco. Já o filme coloca o jornalismo no seu holofote. A moral, a ética, o papel do jornalismo, sua importância, sua subversão, seus deveres, e até suas mudanças, pois o filme também coloca a questão da era digital e de como o jornalismo reage a isso.
Atualmente a internet nos possibilita acesso a muitas informações, e a grande maioria delas não é apurada, o que faz com que uma investigação jornalística como essa do filme pareça uma coisa bem distante da realidade que vivemos. Tudo tem que ser falado, postado e comentado na hora que acontece... e depois de algumas horas (dias, na melhor das hipóteses) já era. Todo mundo já esqueceu.

Esse cenário faz do jornalismo uma coisa tão homogênea que já não parece possível um "holofote", um spotlight que faça com que o mundo se vire pra alguma coisa e faça algo a respeito, mude algo de fato. Parece que tudo tem a mesma importância, e acaba não tendo importância nenhuma. Qualquer informação é legitimada e, pior, qualquer opinião é legitimada na internet, então vira um milhão de pessoas falando qualquer coisa sem uma fundamentação adequada.
Pra não dizer que não falei das flores, acho que o atentado de Paris teve seu holofote, que por sua vez foi bem próximo do holofote do desastre ambiental em Mariana. Entretanto, apesar da comoção (também importante para mover as pessoas), os textos que li pouco falavam do que importava. Muito provavelmente as pessoas leram uma manchete ou duas e já saíram falando, sem ler nada a respeito, sem fundamento, sem discussões importantes.

Vamos falar da importância de um bom jornalismo.
Vamos falar dos spotlights que não estão sendo feitos.


 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Vamos falar de Macbeth

"[A vida] é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum."

Gente... Precisamos falar sobre issoo!

Essa frase é da tragédia Macbeth escrita pelo dramaturgo inglês William Shakespeare entre 1603 e 1607. A peça amaldiçoada que, "supersticiosamente" falando, não se pode nem dizer o nome em voz alta (tipo Voldemort, do Harry Potter), e sua encenação traz má sorte.
Para os que não conhecem, vamos dar um panorama beeeem geral:
Macbeth é general do exército do rei Duncan, na Escócia e recebe a visita de três bruxas (ou moiras) que trazem profecias. Uma delas diz que ele em breve será rei da Escócia. Ele então escreve à esposa, Lady Macbeth ("a encarnação da escrota" como me disse um professor de Filosofia uma vez, e também meu papel dos sonhos), e ela, com sede de poder, bola um plano para assassinar o rei Duncan. E assim Macbeth o faz, porém fica completamente perturbado. Lady Macbeth em muitos momentos é obrigada a tomar as rédeas da situação. 
Basicamente, os dois enlouquecem.
(Gente, não existe spoiler quando se trata de clássicos, é conhecimento prévio de mundo, beijos.)

Bem, voltando a frase... quando penso no "idiota" a que Macbeth se refere como sendo o autor da vida eu imagino um ser totalmente irracional, impulsivo, que não possui lógica nenhuma e que fica correndo de um lado pro outro escrevendo o que vai acontecer de forma totalmente aleatória.
E essa pra mim é uma ilustração perfeita da própria vida.
As religiões e outras crenças que me perdoem, mas tem cada coisa que acontece que não encontramos sentido. Não importa o quanto a gente evolua na medicina, não podemos evitar a morte; não importa o quanto a gente se aprofunde em filosofia, nem sequer entendemos a morte, ou porque estamos aqui, ou quem somos nós; não importa todo o desenvolvimento tecnológico que nos enrijece, nos afasta das pessoas, a gente ainda precisa delas, e ainda temos sentimentos que não conseguimos entender nem explicar... Nada faz sentido! Milhões e milhões de anos no mundo e ainda não sabemos nada.

Apesar da tragédia Macbeth ser do século XVII, essa é uma discussão totalmente moderna, por isso Shakespeare é tão genial. Até hoje nos questionamos sobre tudo.
É uma peça em que tudo acontece por causa de profecias e ao mesmo mesmo tempo questiona justamente as noções de destino. A velha pergunta: será que Macbeth e Lady Macbeth teriam feito o que fizeram se não soubessem da profecia? Ou, será que eles teriam feito tudo isso se soubessem o que viria depois? 

Isso tudo, porque na última segunda-feira fui assistir a versão de Macbeth que fizeram para o cinema com Michael Fassbender e a Marion Cotillard (amo demais), dirigida por Justin Kurzel. Achei uma boa versão, foi inclusive selecionado para concorrer ao prêmio Palma de Ouro em Cannes. Eu gostei de como o diretor colocou o visual como primeira importância, o filme é super bonito, com cores e locações lindíssimas. E ao mesmo tempo ele se manteve fiel ao texto, a linguagem arcaica e forte. E os atores estão no ponto certo, muito bons. Marion Cotillard não só não tem sotaque francês como encarnou um sotaque escocês inacreditável. 

Recomendo a todos que LEIAM Macbeth, tem muito mais do que eu escrevi aqui, vale muito a pena. E se quiserem assistir uma versão audiovisual, essa é boa.
E fica a reflexão sobre o "idiota".
Aliás... será que não somos nós mesmos esse idiota escrevendo essa história sem sentido?


Para encerrar: SENTE-SE, de Bertolt Brecht
(créditos ao Marcos Madalena que me apresentou)


Sente-se.
Está sentado?
Encoste-se tranquilamente na cadeira.
Deve sentir-se bem instalado e descontraído.
Pode fumar.
É importante que me escute com muita atenção.
Ouve-me bem?
Tenho algo a dizer-lhe que vai interessá-lo.
Você é um idiota.
Está realmente a escutar-me?
Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?
Então Repito: você é um idiota. Um idiota.
I como Isabel;
D como Dorival;
outro I como Irene;
O como Orlando;
T como Teodoro;
A como Ana.
Idiota.
Por favor não me interrompa.
Não deve interromper-me.
Você é um idiota.
Não diga nada.
Não venha com evasivas.
Você é um idiota.
Ponto final.
Aliás não sou o único a dizê-lo.
A senhora sua mãe já o diz há muito tempo.
Você é um idiota.
Pergunte pois aos seus parentes.
Se você não é um idiota...
claro, a você não lho dirão, porque você se tornaria vingativo como todos os idiotas.
Mas os que o rodeiam já há muitos dias e anos sabem que você é um idiota.
É típico que você o negue.
Isso mesmo: é típico que o Idiota negue que o é.
Oh, como se torna difícil convencer um idiota de que é um Idiota.
É francamente fatigante.
Como vê, preciso de dizer mais uma vez que você é um Idiota e no entanto não é desinteressante para você saber o que você é e no entanto é uma desvantagem para você não saber o que toda a gente sabe.
Ah sim, acha você que tem exactamente as mesmas ideias do seu parceiro.
Mas também ele é um idiota.
Faça favor, não se console a dizer que há outros Idiotas: Você é um Idiota.
De resto isso não é grave.
É assim que você consegue chegar aos 80 anos.
Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem.
E então na política!
Não há dinheiro que o pague.
Na qualidade de Idiota você não precisa de se preocupar com mais nada.
E você é Idiota.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Vamos falar de Star Wars

Mais do que uma megaproduçãohollywoodiana, Star Wars: O Despertar da Força têm importância social e demonstra mais uma vez como arte, cultura e entretenimento deve ser instrumento de transformação e é importante para o desenvolvimento humano.
Sim, estamos falando da protagonista feminina.  

Abre parênteses: conheçam Teste de Bechdel no qual Star Wars passou. "O teste de Bechdel pergunta/questiona se uma obra de ficção possui pelo menos duas mulheres que conversam entre si sobre algo que não seja um homem." Melhor do que conhecer, tente pensar na maior quantidade possível de filmes e se pergunte se eles passariam no teste. Poucos passariam. Fecha parênteses.

Vi muitos comentários positivos sobre a heroína do filme, um dos meus favoritos é o que aparece uma foto dela e escrito junto "Fight. Like a girl." ("Lute. Como uma menina"). A personagem dá um show de personalidade, de força, de inteligência. E ISSO É IMPORTANTE. E me deixou muito feliz que tenha acontecido numa franquia desse tamanho, batendo todos os recordes de bilheteria. Ó TI MO. 

Além disso, o filme é muito bom. Muito bom. Fui na pré estreia e me envolvi demais, altas emoções. 

Ainda na nossa cultura a mulher sofre bastante preconceito, desigualdade e desrespeito, além de violência, relacionamentos abusivos, e muito, muito mais. Vocês sabiam que mesmo no cinema as mulheres ainda recebem menos do que os homens? Quando Scarlett Johansson recebeu o mesmo salário que os dois homens do filme Os Vingadores foi até notícia. Porque ainda não é comum. E muita gente não sabe!
A cultura tem que ser mais do que entretenimento, tem que ter compromisso social. 

Vamos falar das mulheres.
Vamos falar das mulheres na nossa cultura.
Vamos falar de respeito às nossas mulheres.
VAMOS FAZER UM ESCÂNDALO¹ (como disse minha amiga Jout Jout) - Aliás sou contra todos esses realities com crianças, muita exposição.

Star Wars VII, eu queria dizer *clap clap clap clap clap*



¹ Jout Jout - "Vamos fazer um escândalo" https://www.youtube.com/watch?v=0Maw7ibFhls  

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Vamos falar de Snapchat

Tempos difíceis para o teatro brasileiro...

Como se já não tivéssemos de enfrentar problemas de incentivo e valorização, atualmente também enfrentamos desrespeito. A mensagem "por favor, desliguem seus celulares" é cada vez mais ignorada pelo público. Como atores, nós nos sentimos desrespeitados ao identificar (não é difícil) indivíduos com a luz de seus celulares no rosto. E como plateia, nós também somos desrespeitados pelos mesmos sujeitos.

Identificamos um "vilão": o snapchat, que inclusive ultrapassa a questão do respeito e atinge o ponto de ser uma simples forma de exibicionismo. Inúmeras fotos e vídeos são feitos durante nossos espetáculos de teatro e teatro musical que, na realidade, não dizem nada sobre eles, dizem apenas "vejam onde eu estou." 

Acho que a ideia é que as pessoas pensem "nossa, que legal". Eu particularmente penso:

"Peloamordedeus, para de gravar o espetáculo e se preocupa em assisti-lo."

É como aquela pessoa que tweeta "Essa festa tá muito boa!" e a gente pensa "Se tá tão boa, porque você tá no twitter?". Mesma lógica. 

Observação: eu especifiquei "teatro brasileiro", porque a minha experiência com teatro no exterior me apresentou uma coisa chamada lanterninha. Muitos lanterninhas numa casa de espetáculo. Pense em pegar seu celular, e um deles já estará na sua cola. Insista, e as pessoas vão te xingar. 
Por que não lanterninhas, Brasil? Além de resolver isso poderíamos empregar muitas pessoas. Só em São Paulo, existem 164 teatros e 39 centros culturais¹. Se cada um tiver (chutando baixo) cinco lanterninhas, são mais de MIL pessoas que poderíamos empregar. Ou seja, emprego e educação.

Ampliando a situação: Cada vez mais estamos vivendo o mundo através das telas e isso, sinto dizer, não pode ser bom. Apesar de as telas terem muito potencial para serem fonte de informação e facilitadoras de comunicação, elas estão se tornando as únicas fontes de informação e formas de comunicação. A arte sempre foi uma forma do homem se comunicar com o mundo, mas essa comunicação fica prejudicada com uma tela no meio.
Gente, vive.
Vive o mundo.
Respira o mundo, toca no mundo, vê o mundo.

Você vai perceber que ele é muito maior do que você imaginava...

Menos telas... 
Vamos fazer esse esforço?


 ¹fonte: http://www.visitesaopaulo.com/dados-da-cidade.asp