"[A vida] é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum."
Gente... Precisamos falar sobre issoo!
Essa frase é da tragédia Macbeth escrita pelo dramaturgo inglês William Shakespeare entre 1603 e 1607. A peça amaldiçoada que, "supersticiosamente" falando, não se pode nem dizer o nome em voz alta (tipo Voldemort, do Harry Potter), e sua encenação traz má sorte.
Para os que não conhecem, vamos dar um panorama beeeem geral:
Macbeth é general do exército do rei Duncan, na Escócia e recebe a visita de três bruxas (ou moiras) que trazem profecias. Uma delas diz que ele em breve será rei da Escócia. Ele então escreve à esposa, Lady Macbeth ("a encarnação da escrota" como me disse um professor de Filosofia uma vez, e também meu papel dos sonhos), e ela, com sede de poder, bola um plano para assassinar o rei Duncan. E assim Macbeth o faz, porém fica completamente perturbado. Lady Macbeth em muitos momentos é obrigada a tomar as rédeas da situação.
Basicamente, os dois enlouquecem.
(Gente, não existe spoiler quando se trata de clássicos, é conhecimento prévio de mundo, beijos.)
Bem, voltando a frase... quando penso no "idiota" a que Macbeth se refere como sendo o autor da vida eu imagino um ser totalmente irracional, impulsivo, que não possui lógica nenhuma e que fica correndo de um lado pro outro escrevendo o que vai acontecer de forma totalmente aleatória.
E essa pra mim é uma ilustração perfeita da própria vida.
As religiões e outras crenças que me perdoem, mas tem cada coisa que acontece que não encontramos sentido. Não importa o quanto a gente evolua na medicina, não podemos evitar a morte; não importa o quanto a gente se aprofunde em filosofia, nem sequer entendemos a morte, ou porque estamos aqui, ou quem somos nós; não importa todo o desenvolvimento tecnológico que nos enrijece, nos afasta das pessoas, a gente ainda precisa delas, e ainda temos sentimentos que não conseguimos entender nem explicar... Nada faz sentido! Milhões e milhões de anos no mundo e ainda não sabemos nada.
Apesar da tragédia Macbeth ser do século XVII, essa é uma discussão totalmente moderna, por isso Shakespeare é tão genial. Até hoje nos questionamos sobre tudo.
É uma peça em que tudo acontece por causa de profecias e ao mesmo mesmo tempo questiona justamente as noções de destino. A velha pergunta: será que Macbeth e Lady Macbeth teriam feito o que fizeram se não soubessem da profecia? Ou, será que eles teriam feito tudo isso se soubessem o que viria depois?
Isso tudo, porque na última segunda-feira fui assistir a versão de Macbeth que fizeram para o cinema com Michael Fassbender e a Marion Cotillard (amo demais), dirigida por Justin Kurzel. Achei uma boa versão, foi inclusive selecionado para concorrer ao prêmio Palma de Ouro em Cannes. Eu gostei de como o diretor colocou o visual como primeira importância, o filme é super bonito, com cores e locações lindíssimas. E ao mesmo tempo ele se manteve fiel ao texto, a linguagem arcaica e forte. E os atores estão no ponto certo, muito bons. Marion Cotillard não só não tem sotaque francês como encarnou um sotaque escocês inacreditável.
Recomendo a todos que LEIAM Macbeth, tem muito mais do que eu escrevi aqui, vale muito a pena. E se quiserem assistir uma versão audiovisual, essa é boa.
E fica a reflexão sobre o "idiota".
Aliás... será que não somos nós mesmos esse idiota escrevendo essa história sem sentido?
Para encerrar: SENTE-SE, de Bertolt Brecht
(créditos ao Marcos Madalena que me apresentou)
Sente-se.
Está sentado?
Encoste-se tranquilamente na cadeira.
Deve sentir-se bem instalado e descontraído.
Pode fumar.
É importante que me escute com muita atenção.
Ouve-me bem?
Tenho algo a dizer-lhe que vai interessá-lo.
Você é um idiota.
Está realmente a escutar-me?
Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?
Então Repito: você é um idiota. Um idiota.
I como Isabel;
D como Dorival;
outro I como Irene;
O como Orlando;
T como Teodoro;
A como Ana.
Idiota.
Por favor não me interrompa.
Não deve interromper-me.
Você é um idiota.
Não diga nada.
Não venha com evasivas.
Você é um idiota.
Ponto final.
Aliás não sou o único a dizê-lo.
A senhora sua mãe já o diz há muito tempo.
Você é um idiota.
Pergunte pois aos seus parentes.
Se você não é um idiota...
claro, a você não lho dirão, porque você se tornaria vingativo como todos os idiotas.
Mas os que o rodeiam já há muitos dias e anos sabem que você é um idiota.
É típico que você o negue.
Isso mesmo: é típico que o Idiota negue que o é.
Oh, como se torna difícil convencer um idiota de que é um Idiota.
É francamente fatigante.
Como vê, preciso de dizer mais uma vez que você é um Idiota e no entanto não é desinteressante para você saber o que você é e no entanto é uma desvantagem para você não saber o que toda a gente sabe.
Ah sim, acha você que tem exactamente as mesmas ideias do seu parceiro.
Mas também ele é um idiota.
Faça favor, não se console a dizer que há outros Idiotas: Você é um Idiota.
De resto isso não é grave.
É assim que você consegue chegar aos 80 anos.
Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem.
E então na política!
Não há dinheiro que o pague.
Na qualidade de Idiota você não precisa de se preocupar com mais nada.
E você é Idiota.

Nenhum comentário:
Postar um comentário